Sífilis na gestação e Sífilis congênita – um problema em ascensão

A sífilis é uma doença milenar, com descrições iniciais datando de 2.637 a.c. havendo na história, várias descrições de epidemias de sífilis. Com o surgimento da penicilina, droga utilizada para o tratamento eficaz da doença, na década de 1.940, o mundo assistiu a diminuição importante do número de casos. Porém desde a década de 1980, a incidência tem progressivamente aumentado, atingindo não apenas a população geral, mas também e de forma muito expressiva as gestantes, acarretando a elevação dos números de sífilis congênita nos bebês.

Segundo o Boletim Epidemiológico do Estado de São Paulo de 2016 (acesso em  http://www.saude.sp.gov.br/resources/crt/vig.epidemiologica/boletim-epidemiologico-crt/boletim_epidemiologico_2016.pdf?attach=true), no período de 2007 a 2016 (dados até 30/06/2016) foram notificados 34.937 casos de sífilis em gestantes. Observou-se elevação de mais de seis vezes no número de casos notificados, entre 2007 a 2015 e esses números permanecem em ascensão. As estatísticas mostram a presença de casos em todas as classes sociais, não sendo a sífilis uma doença exclusiva de classes menos favorecidas ou de faixas etárias específicas.

A sífilis é uma doença infecciosa, bacteriana, causada pelo Treponema pallidum, de evolução crônica. Nos adultos, incluindo as gestantes, a transmissão ocorre em quase 100% dos casos por via sexual. Excepcionalmente a infecção pode ocorrer por contato com lesões secretantes, infectantes.

No adulto, incluindo as gestantes, a doença é dividida em:

* sífilis primária: caracterizada pela presença do cancro duro, que é uma lesão ulcerada, geralmente única, de bordos bem nítidos, indolor, podendo ter secreção incolor,  aparecendo cerca de 3 semanas após o contágio. Havendo ou não o tratamento da sífilis, após algum tempo, essa lesão desaparecerá. Na mulher, pelas características anatômicas do aparelho genital feminino, a lesão pode muitas vezes não ser percebida, sendo detectada apenas pelo exame ginecológico. Além da lesão em região genital, o cancro pode aparecer em outros locais, como boca, ânus, mamilos. Apesar da lesão cicatrizar sozinha, a sífilis não estará curada, ela permanece “dormente” no organismo do paciente. O diagnóstico dessa fase é feito através da história do paciente, exame físico e exames laboratoriais.  A chance de transmissão da sífilis da gestante para o feto nessa fase da doença é de 70 a 100% dos casos.

* sífilis secundária: após 6 a 8 semanas da fase primária, a paciente, inclusive a gestante, pode desenvolver a sífilis secundária. Nessa fase, o paciente pode ficar assintomático, ou seja, sem sintomas, ou aparecer a roséola, que são lesões avermelhadas difusas na pele, semelhantes a lesões alérgicas, podendo ser acompanhada ou não de febre e mal estar. Assim como na fase primária, após alguns dias, independente do tratamento, as lesões irão regredir espontaneamente, mas a sífilis permanecerá “dormente” no organismo. Apesar desse “silêncio clínico”, sem sintomas, o paciente estará transmitindo a doença, inclusive a gestante para seu fase é feito através da história do paciente, exame físico e exames laboratoriais.

* sífilis latente: a sífilis permanece totalmente assintomática, podendo ficar nessa fase por anos. Nesse momento, o diagnóstico só é possível através da realização de exames de sangue (sorologia). Apesar de assintomático, a doença continua sendo transmissível, com possibilidade de transmissão da gestante para seu concepto de cerca de 30% ou mais (dependendo de quanto tempo ocorreu o início da doença). A maioria dos pacientes, inclusive as gestantes, encontram-se nessa fase da doença.

* sífilis terciária: pode ocorrer 2 a 40 anos após a fase inicial da doença, tendo como característica a presença de lesões cutâneo-mucosas, articulares, ósseas, cardíacas, vasculares e neurológicas, com potencial para evolução com quadro com muitas sequelas e até o óbito. O diagnóstico dessa fase é feito através da história do paciente, exame físico e exames laboratoriais.

Na gestante é OBRIGATÓRIO a realização durante o pré-natal dos exames sorológicos para sífilis, pelo menos no 1° e 3° trimestre de gestação. A paciente pode ter sífilis adquirida inclusive em relacionamentos anteriores, estando essa em fase silenciosa, não mostrando sinais da sua presença, havendo sempre chances de transmissão para o feto. Esses exames são obrigatórios tanto em pré-natal realizado em rede pública quanto privada. Além desses momentos, o exame pode ser solicitado em outros momentos da gestação, conforme se fizer necessário.

Além da realização da sorologia de sífilis na gestante, é de suma importância que essa seja também feita no parceiro dessa gestante, já que como ela, ele pode ter sífilis e desconhecer o diagnostico, havendo chance de transmissão a parceira e consequentemente a gestante ao concepto. Esse monitoramento do parceiro é importantíssimo. É muito importante que o tratamento do parceiro seja realizado junto com o da gestante.

Há ainda a obrigatoriedade da realização do exame de sífilis no momento do parto, tanto em maternidades públicas, quanto as privadas, já que a gestante pode adquirir a sífilis próximo ao momento do parto, posteriormente a data de realização do seu último exame, havendo também a possibilidade de transmissão ao bebê.

Quando diagnosticada na gestante, o tratamento é feito com penicilina benzatina (Benzetacil), sendo esse o único tratamento eficaz para sífilis na gestante, com possibilidade de prevenção da sífilis congênita. A sífilis na gestante é uma doença 100% tratável quando diagnosticada!!!

A sífilis congênita é o resultado da disseminação da bactéria Treponema pallidum da mãe não tratada ou inadequadamente tratada para o seu concepto. Ela pode ocorrer em qualquer fase da gestação, através da placenta, sendo o bebê mais gravemente afetado quanto mais precoce for o período da gestação em que essa mulher se infecta e quanto mais recente for a sífilis da mãe (por exemplo se ela se infectar durante a gestação).

Ela é uma doença prevenível, se tratarmos a gestante de forma correta e no tempo adequado durante a gestação. Porém quando isso não ocorre e o bebê tem sífilis congênita. A doença é grave, com chance de abortamentos, óbito fetal, natimortalidade, prematuridade ou quadros clínicos muito graves com meningite, septicemia, lesões ósseas, entre outras. Mais da metade das crianças infectadas nascem assintomáticas e desenvolvem a doença mais tardiamente, a grande maioria até os 3 meses de idade. Quanto mais cedo for o diagnóstico, menores serão as chances de sequelas para essa criança, que podem ser auditivas, oftalmológicas ou neurológicas. Sendo assim é fundamental que esse diagnóstico, mesmo nos bebês sem sintomas, seja feito na maternidade, para que ele já possa ser tratado precocemente, minimizando a possibilidade de sequelas. Para que ocorra esse diagnóstico, é de suma importância a realização dos exames na mãe, na gestação (que devem sempre ser levados no momento do parto) e parto, além dos exames no parceiro e nos casos necessários, a investigação no bebê recém-nascido.

O tratamento da sífilis congênita é feita com penicilina, devendo o bebê permanecer internado para realização dos exames e medicação, por 10 dias. Não existe tratamento via oral para sífilis congênita, sendo esse sempre feito de forma injetável, habitualmente endovenoso e em casos bem específicos podendo ser realizado intramuscular. Após o tratamento a criança deverá realizar um seguimento específico para sífilis congênita com duração de 2 a 5 anos dependendo do caso.

Portanto, o tratamento e seguimento do bebê é bastante complicado e trabalhoso. Tudo isso pode ser evitado com o diagnóstico e tratamento da gestante, evitando-se além de todo o desgaste para o bebê e para família, a possibilidade de desfechos desfavoráveis, como óbito da criança, através deste diagnóstico e tratamento na gestação.

Infelizmente os números de sífilis em gestante e sífilis congênita são assustadores, em todas as regiões, não apenas do Brasil mas em todo mundo, devendo ser ressaltada novamente, que ela pode ocorrer em qualquer faixa etária, desde adolescentes até idosos, e em todas as classes sociais. No estado de São Paulo em 2015, segundo o Boletim Epidemiológico de São Paulo, foram notificados 3.437 casos de sífilis congênita no estado, que correspondeu a uma taxa de incidência de 5,4 casos por 1.000 nascidos vivos.  A taxa de incidência em 2015 foi quatro vezes maior do que em 2009.

Converse com seu ginecologista ou pediatra sobre a sífilis. Quanto mais a população tiver conhecimento sobre essa terrível doença, mais ela poderá ser diagnosticada e nossos bebês nascerão saudáveis.

Daniela Vinhas Bertolini - CRM 85228

Imagem: www.google.com.br

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